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Uma breve biografia de Monteiro Lobato.​

José Bento Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, no interior de São Paulo, em 18 de abril de 1882. Registrado como José Renato Monteiro Lobato, ainda jovem adotou o nome José Bento – ele queria ter as mesmas iniciais gravadas numa bengala que pertencera ao pai. Conhecido como Juca pela família, passou parte da infância na fazenda do avô materno, o visconde de Tremembé, onde conviveu com o ambiente rural do Vale do Paraíba. Gostava de pescar, andar a cavalo, ler livros de aventura, desenhar e inventar histórias. Algumas de suas primeiras experiências de escrita apareceram em jornais escolares.

Lobato perdeu o pai em 1898 e a mãe no ano seguinte, quando ainda era adolescente. Seu desejo era estudar belas-artes e tornar-se pintor, mas o avô insistiu para que cursasse Direito. Em 1900, ele ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo. Interessava-se menos pelas disciplinas jurídicas do que pelos grupos literários, pelas caricaturas e pelos jornais que ajudava a produzir. Formou-se em 1904 e, alguns anos depois, tornou-se promotor público em Areias. Em 1908, casou-se com Maria Pureza da Natividade, a Purezinha, com quem teve quatro filhos.

Com a morte do avô, em 1911, Lobato herdou a fazenda Buquira, na região que hoje pertence ao município de Monteiro Lobato. Tentou modernizar a produção, mas a experiência como fazendeiro não deu o resultado esperado. Desse contato com a vida rural surgiram artigos como “Velha praga” e “Urupês”, publicados em 1914 no jornal O Estado de S.Paulo. Neles apareceu Jeca Tatu, personagem que provocou intensa discussão por representar o trabalhador do campo como atrasado, doente e abandonado. Mais tarde, o próprio Lobato reviu parte dessa interpretação e passou a relacionar a situação do Jeca à pobreza, às doenças e à falta de saneamento.

Em 1917, vendeu a fazenda e mudou-se com a família para São Paulo. No ano seguinte, publicou Urupês, seu primeiro grande sucesso. Logo se tornou editor e ajudou a transformar o mercado de livros no país: publicou autores novos, investiu em capas atraentes, preços mais acessíveis e formas de distribuição que levavam os livros para além das poucas livrarias existentes. Lobato fundou a sua primeira editora em 1920, a Monteiro Lobato & Cia, que faliu em 1925, mas deu origem à Companhia Editora Nacional, que se tornaria uma das editoras mais importantes do Brasil.

A literatura infantil ocupou um lugar cada vez maior em sua obra. A partir de A menina do narizinho arrebitado, publicada em 1920, Lobato criou e desenvolveu o universo do Sítio do Picapau Amarelo. Dona Benta, Narizinho, Pedrinho, Emília, Visconde de Sabugosa, Tia Nastácia e outros personagens passaram a viver aventuras em que o cotidiano brasileiro se misturava com o folclore, a ciência, a história e personagens da literatura universal. Em livros como Reinações de Narizinho, O Saci, Memórias da Emília, O Picapau Amarelo e A chave do tamanho, as crianças não aparecem apenas como ouvintes: elas perguntam, discordam, inventam e transformam o mundo ao redor.

Lobato, porém, não foi somente escritor. Foi também jornalista, tradutor, editor, empresário e participante ativo dos debates de seu tempo. Entre 1927 e 1931, viveu em Nova York como adido comercial do Brasil. Impressionado com o desenvolvimento industrial dos Estados Unidos, voltou convencido de que o ferro e o petróleo eram essenciais para o futuro brasileiro. Criou empresas petrolíferas, escreveu livros e artigos sobre o petróleo e entrou em conflito com o governo de Getúlio Vargas. Depois de enviar uma carta com duras acusações sobre a política do petróleo, foi preso em 1941 durante o Estado Novo, período marcado pela ditadura e pela censura.

Sua trajetória também possui contradições que não devem ser escondidas. Em textos literários, artigos e cartas, Lobato expressou ideias racistas e eugenistas que circulavam entre muitos intelectuais de sua época, mas hoje são claramente inaceitáveis. Algumas descrições de personagens negros e do povo brasileiro reproduzem estereótipos ofensivos. Ao mesmo tempo, obras como o conto Negrinha denunciam a crueldade do racismo e da herança escravista. Essa tensão não elimina a importância de Lobato, mas exige que sua obra seja lida com atenção crítica, considerando tanto sua força literária quanto os limites e preconceitos presentes no seu tempo. A professora Dra. Cilza Carla Bignotto é a pesquisadora que aborda essa questão do racismo e do contraditório em Lobato com a maior seriedade e aprofundamento na atualidade.*

Monteiro Lobato morreu em São Paulo, em 4 de julho de 1948, aos 66 anos. Deixou uma obra extensa para adultos e crianças e uma contribuição decisiva para a história editorial brasileira. Seus livros atravessaram gerações, receberam inúmeras ilustrações e adaptações para rádio, teatro e televisão. Ler Lobato hoje significa entrar em contato com um autor que renovou a literatura infantil e ampliou o espaço do livro no Brasil.

*Leia o texto Mestre ou monstro? da Dra. Cilza Carla Bignotto no link
https://cilza.substack.com/p/mestre-ou-monstro

FONTE: site www.monteirolobato.com mantido por Cléo Monteiro Lobato, bisneta do escritor

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